“Do Capitalismo ao Felicidadismo”: um novo modelo para medir o que nos faz felizes

O que faz as pessoas sentirem-se felizes de forma tão diferente em países com níveis de riqueza tão distintos? Foi esta pergunta que levou Cátia Arnaut a abandonar uma carreira nas telecomunicações para se dedicar à investigação científica sobre o bem-estar. O resultado é o livro “Do Capitalismo ao Felicidadismo”, apresentado no sábado, dia 7, na Coolabora.

A autora começou a carreira na área dos sistemas de informação e saiu de Portugal em 2012. Viveu nos Emirados Árabes Unidos, em Angola e na Suíça, passando por contextos económicos radicalmente diferentes. Essa experiência foi decisiva.


“No Dubai o rendimento per capita era cerca de 80 dólares por dia, em Genebra rondava os 180, e em Angola não chegava aos 4. Mas as pessoas eram muito mais felizes em Angola”, recorda.

A constatação reforçou uma ideia de que a investigação veio confirmar: o dinheiro, por si só, não traz felicidade. “Até determinado ponto garante as necessidades básicas, mas a partir daí não são acréscimos de rendimento que trazem bem-estar”, afirma.

Foi essa dúvida persistente que, anos mais tarde, a levou a enveredar por um doutoramento. “Há pessoas que compram um Porsche, a mim deu-me para meter num doutoramento”, brinca. O objetivo era claro: perceber que políticas adotariam os governos se realmente colocassem o bem-estar das populações no centro das decisões.

Da investigação nasceu um modelo científico que começou com cerca de 180 variáveis, mas que foi sendo afinado até chegar a um quadro de cinco fatores principais que mais influenciam o bem-estar, bem como os principais “detratores”.

A maior conclusão, segundo a autora, é clara: “As relações pessoais são a única variável comum ao bem-estar individual, organizacional e nacional.”

Num mundo cada vez mais digital, Cátia Arnaut sublinha que as relações significativas continuam a ser o principal pilar da felicidade. “Se tiver de ligar a alguém às três da manhã, tem essa pessoa? Ela atende?”, questiona.

Outro fator decisivo é a iniquidade de rendimentos. Para a autora, a máxima “ninguém fica para trás” tem base científica: sociedades mais desiguais são também menos felizes.

O ambiente surge igualmente como um dos grandes determinantes do bem-estar. Três das dez variáveis mais relevantes estão ligadas à sustentabilidade, como o acesso à água e os níveis de dióxido de carbono.

O modelo, sublinha, é universal e não distingue regiões: “Aplica-se a qualquer país”.

Mais do que apresentar dados, o livro propõe um novo paradigma: substituir o foco no crescimento económico por uma lógica centrada no bem-estar das pessoas.

Na segunda parte da obra, a autora imagina como seria o mundo se este modelo fosse aplicado a áreas como a educação, a saúde, a justiça, a segurança ou as instituições internacionais.

Para Portugal, Cátia Arnaut defende mudanças profundas, começando por duas áreas-chave: relações pessoais e desigualdade de rendimentos. Isso implicaria, diz, uma verdadeira revolução social.

“Para termos tempo para as relações, o work-life balance tem de melhorar muitíssimo. Jornadas de 14 ou 16 horas não funcionam.”

A autora critica ainda o atual modelo educativo: “As escolas não podem ser depósitos de crianças. Elas precisam de tempo para brincar e de menos horas de aulas”.

No campo da desigualdade, aponta dados recentes: em Portugal, as mulheres trabalham, em média, 62 dias por ano gratuitamente face aos homens, mesmo com funções e qualificações semelhantes. Além disso, muitas famílias continuam sem conseguir garantir necessidades básicas como habitação, alimentação, educação ou saúde.

Para Cátia Arnaut, mudar estas duas variáveis já seria suficiente para iniciar uma mudança de paradigma.

“Só olhando para estas duas dimensões, já estaríamos a falar de uma revolução muito radical.”

“Do Capitalismo ao Felicidadismo” é, assim, uma proposta para repensar o desenvolvimento, colocando a felicidade e o bem-estar no centro das políticas públicas.