Com a mensagem de que foi uma luta de todos e não apenas do autor, foi apresentado, ontem, o livro de Luís Garra, “O Interior é Razão – Abolição das portagens, uma história de luta com final feliz”, no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã.
Luís Garra falou sobre todo o processo e a mobilização cívica em torno da luta pela abolição das portagens no interior do país, nesta obra, que foi um imprevisto na sua vida, afirmando que o livro foi um trabalho coletivo.
“Este livro é mais um imprevisto na minha vida. Até hoje escrevi muitos artigos de opinião, comunicados, reflexões, resoluções, moções, petições, abaixo assinados, mas nunca escrevi a pensar que ia escrever um livro. Este nasce de um acaso. Quando me foi lançado o desafio de escrever fiquei com dúvidas, pois a escrever sobre o tema poderia haver quem errada, mas legitimamente, pudesse pensar e dizer que me estou a colocar em bicos de pés. Esta luta não teve um mentor, não teve um líder, é de todos os elementos que desde 2004 lutavam pelo fim das portagens na A23 e A25”, começou por dizer o autor.
O escritor realçou ainda o facto de que apesar de, ser um livro pessoal, todos se uniram por esta causa e por isso mesmo, isso faz com que não seja o protagonista deste livro.
“O facto de ser um livro pessoal, não me transforma o dono da luta pela abolição das portagens e muito menos no protagonista. O sentir comum e a reclamação de justiça uniam cada um de nós, num projeto de unidade na diversidade.”
Durante a apresentação, foi abordada a Plataforma e toda a importância que a sua criação contribuiu para esta luta, no entanto, Luís Garra realçou o facto de já existirem antes outras organizações que lutavam por este objetivo.
“A criação da Plataforma P’la Reposição das Scut não constituiu o início de uma luta, que se mostrou necessária, útil, determinante e vitoriosa. Antes dela, já outras organizações entreviam e organizavam o protesto e a luta das populações, dos trabalhadores e empresários”, afirmou.
Mário Raposo, antigo reitor da Universidade da Beira Interior, foi o responsável por apresentar a obra, e durante a sua intervenção falou igualmente da Plataforma e da capacidade da mesma, ao longo desta causa.
“A obra mostra que a Plataforma teve a capacidade de reunir em torno de uma causa, com um conjunto de agentes que à partida parecia que não se podiam juntar. A obra contribui também para criar um ambiente propício ao debate democrático, demonstrando que as vozes da sociedade podem ser ouvidas e consideradas nas questões políticas.”
Também Hélio Fazendeiro, presidente da Câmara Municipal da Covilhã, evidenciou a importância, não só da Plataforma, mas também de todos aqueles que se uniram para o mesmo fim.
“Com a sua voz exigente e o seu método/capacidade de organização que também mostra neste livro, com a compilação documental e jornalística, Luís Garra dá-nos mais um contributo. Há muito que o faz, seja nas portagens, seja agora. Como o próprio alerta no livro, a causa das portagens foi coletiva e por isso mesmo, quero agradecer a todos os que se juntaram a cada passo, a cada ação, à plataforma e aos muitos anónimos que emprestaram as suas buzinas. Foi graças a essa união, que tivemos as palavras que Luís Garra deixa no final.”
O autarca reafirmou a importância do livro, sendo uma luta de justiça social, com grande mérito.
“Esta luta nunca foi apenas uma reivindicação local, foi de justiça social. O livro que hoje é apresentado tem um mérito muito importante, sendo que regista e preserva a memória de uma mobilização cívica alargada, feita de cidadãos, associações, sindicatos, empresários, autarcas e muitas outras instituições que souberam unir-se em torno de um objetivo comum.”
Durante o seu discurso, o presidente da CMC abordou ainda a questão dos transportes no interior e os custos elevados de deslocação.
“Se a abolição das portagens representou um passo importante para corrigir uma desigualdade territorial, há ainda desafios que precisamos de enfrentar com determinação. Um deles é o da igualdade do acesso à mobilidade e ao financiamento público dos transportes. Hoje sabemos que os cidadãos do interior continuam muitas vezes a suportar custos mais elevados de deslocação do que aqueles que vivem nas grandes áreas metropolitanas, seja pela menos oferta de transporte público, seja pela necessidade de recorrer ao automóvel próprio”, disse Hélio Fazendeiro.
Luís Garra explicou o desenvolvimento do livro, realçando a sua abordagem e o facto de escrever de forma factual, garantido apenas transmitir factos, nas 327 páginas que constituem a obra.
“Não faço desenvolvimento de temas, apenas sinalizo factos que considero importantes. Opto por uma abordagem, dentro do possível, factual, sem deixar de interpretar, que ajuda a uma leitura simples, rápida e percetível. Não sei escrever de outra forma, que não seja da maneira como falo”, evidenciou o autor.
Para o futuro, Hélio Fazendeiro deixou o apelo, para que todos prossigam esta caminhada, juntamente com o Município da Covilhã, em defesa por objetivos como: a construção do IC6 e a reabertura da linha da beira baixa.
“Estamos todos convocados para prosseguir esta força transformadora, comigo e com o Município da Covilhã, na linha da frente, em defesa do nosso povo, pelo desenvolvimento, pela coesão territorial e por objetivos concretos como: a construção do IC6, que chegará com décadas de atraso, para obtermos financiamento que nos permita ter transportes públicos acessíveis ao nível das áreas metropolitanas, ou na requalificação/reabertura da linha da beira baixa, que se prevê estar fechada por meio ano.”
Luís Garra terminou a apresentação do livro deixando a mensagem de que o fim das portagens não é o fim da estrada, sendo que já se começam a ver resultados positivos da abolição das portagens, tanto na economia, como nas empresas ou até mesmo na carteira das pessoas.
Recorde-se que a sessão contou ainda com a presença de João Carrega, editor do livro e Casimiro dos Santos, historiador e escritor.
