A delegação Distrital do Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC/FENPROF) acusa a Câmara Municipal da Covilhã (CMC) de recorrer a dinheiros públicos para financiar estruturas privadas de educação de infância, apontando como caso mais grave a tentativa de reabertura do Bolinha de Neve.
Segundo o sindicato, o anunciado encerramento do Colégio das Freiras em 2025 agravou uma situação já crítica de falta de vagas em creches e de sobrelotação dos jardins de infância da rede pública. Face ao risco de centenas de crianças ficarem sem resposta, a Câmara avançou com uma solução que o SPRC/FENPROF considera “eticamente inaceitável”.
Em causa estão rendas pagas pela autarquia, obras de reabilitação financiadas com dinheiro público e a entrega da gestão do espaço a uma IPSS, o que, para o sindicato, representa “a transferência de recursos do Estado para operadores privados, em vez de investimento na rede pública”, refere a nota.
“É urgente reabrir o Bolinha de Neve, mas não à custa do erário público para beneficiar entidades privadas”, afirma o sindicato na nota enviada às redações.
A nota lembra que esta não é uma situação isolada. Segundo relata em novembro de 2025, o provedor da Santa Casa da Misericórdia da Covilhã revelou que o presidente da Câmara prometeu uma dotação de 200 mil euros para a ampliação de uma creche daquela instituição, justificando a urgência com a falta de vagas no concelho.
Para o SPRC/FENPROF, este tipo de medidas revela uma opção política clara: em vez de construir uma rede pública de creches, a autarquia canaliza verbas públicas para IPSS e instituições privadas.
O sindicato critica ainda a ausência de investimento público estruturado, lembrando que a Câmara deixou passar oportunidades de financiamento como o Portugal 2020 e o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para criar creches públicas. Mais grave, dizem, é que nas Grandes Opções do Plano para 2026 não existe qualquer verba destinada à construção de creches ou jardins de infância públicos, confirmando que a autarquia não prevê resolver o problema pela via pública.
A sobrelotação nos jardins de infância públicos está a levar a soluções de “remedeio”, com espaços sobrecarregados e profissionais em excesso de trabalho, colocando em causa a qualidade da resposta educativa.
No centro da polémica está, assim, o Bolinha de Neve, que passou de um problema social urgente para um exemplo de como, segundo o sindicato, o Estado está a financiar indiretamente o setor privado, em vez de garantir uma resposta pública universal.
O SPRC/FENPROF defende que a única solução sustentável é a criação de uma rede pública de creches e o reforço dos jardins de infância públicos, garantindo que o dinheiro dos contribuintes é investido em infraestruturas públicas, com acesso universal e qualidade pedagógica desde a primeira infância.
