A Rede Violência Zero da Cova da Beira assinou, esta segunda-feira, na Covilhã, um novo Protocolo de Territorialização da Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica e Violência contra as Mulheres, numa cerimónia que contou com a presença da Secretária de Estado Adjunta, da Igualdade e da Juventude, Carla Rodrigues.
Coordenada pela CooLabora desde 2010, a Rede Violência Zero promove intervenções especializadas de atendimento, acompanhamento e apoio a vítimas de violência doméstica e de género nos concelhos da Covilhã, Fundão e Belmonte. O novo protocolo assegura a continuidade e o reforço da intervenção realizada no território, através da articulação entre as entidades parceiras, integrando novas organizações, adaptando-se às alterações ocorridas no tecido institucional e passando a incluir uma nova resposta de apoio psicológico e psicoterapêutico para crianças e jovens vítimas de violência doméstica.
Hélio Fazendeiro: “Proteger estas crianças é quebrar um ciclo de violência”

Na abertura da sessão, o presidente da Câmara Municipal da Covilhã, Hélio Fazendeiro, destacou o simbolismo da assinatura ocorrer no Dia Mundial da Criança.
“Hoje, um pouco por todo o lado, este dia é feito de celebração, mas neste salão queremos que seja também um dia de compromisso inabalável com a segurança e o futuro das nossas crianças”, afirmou.
O autarca sublinhou ainda o impacto da resposta especializada dirigida aos mais novos, recordando que, ao longo do último ano, foram apoiadas 119 crianças e adolescentes, através de 670 atendimentos. “A violência doméstica e de género nunca fez apenas uma vítima. Quando um adulto é agredido, a estabilidade e o futuro de uma criança são violentados”, alertou.
Para Hélio Fazendeiro, “o combate à violência doméstica só é eficaz se for travada em articulação absoluta”, considerando que a Rede Violência Zero é “o exemplo vivo disso mesmo”, ao reunir mais de duas dezenas de entidades do território.
Graça Rojão destaca impacto da rede e alerta para desafios futuros

A diretora executiva da CooLabora, Graça Rojão, destacou que a rede “nasceu em 2010 e nunca foi uma rede estática, nem sequer uma rede que existe apenas no papel”, explicando que o novo protocolo formaliza a integração de novas entidades parceiras, entre as quais a Comunidade Intermunicipal da Região Beiras e Serra da Estrela (CIMRBSE), a Casa do Menino Jesus e a Santa Casa da Misericórdia da Covilhã.
Segundo a responsável, os números demonstram a dimensão do trabalho desenvolvido em 2025. “Só no último ano acompanhámos 264 pessoas adultas vítimas de violência doméstica, das quais 90,5% eram mulheres. Realizámos 1.840 atendimentos e promovemos 1.265 articulações com entidades da Rede Violência Zero.”
No que respeita às crianças e jovens, foram acompanhados 119 menores, realizados 670 atendimentos presenciais e efetuadas 60 articulações com a rede.
“Mas estes números são muito mais do que meras estatísticas. Representam pessoas que encontraram proteção quando a violência parecia que não ia ter fim, representam crianças que puderam voltar a sentir-se seguras, representam vidas que foram reconstruídas”, salientou.
Graça Rojão aproveitou ainda para alertar para os desafios que se colocam atualmente à rede nacional de apoio às vítimas, lembrando que “17 estruturas nacionais estão em risco real de encerramento ainda antes do final do presente ano”, situação que considerou preocupante para a sustentabilidade das respostas existentes.
Secretária de Estado reafirma compromisso do Governo com o combate à violência doméstica

Na sua intervenção, a Secretária de Estado Adjunta, da Igualdade e da Juventude elogiou o trabalho desenvolvido no território e considerou que a cerimónia foi muito mais do que um ato formal.
“Efetivamente isto não foi uma sessão protocolar de assinatura de um protocolo, mas foi uma verdadeira tarde e jornada de trabalho. Foi quase que um seminário, foi quase que um reafirmar de um compromisso coletivo de todas as entidades que compõem esta rede”, afirmou Carla Rodrigues.
A governante reafirmou o compromisso do Governo com o combate à violência doméstica, recordando que o Orçamento do Estado contempla “o maior investimento de sempre para prevenir e combater a violência doméstica”, num total de 26 milhões de euros, aos quais se juntam mais 5,3 milhões de euros destinados ao reforço das medidas de proteção, apoio e autonomização das vítimas.
Entre as medidas anunciadas, destacou o reforço das respostas de apoio psicológico especializado para crianças e jovens vítimas de violência doméstica, a criação de uma linha telefónica nacional gratuita, confidencial e multilingue, disponível 24 horas por dia, e o desenvolvimento de centros de crise para vítimas de violência sexual.
“Quando o Estado reforça respostas especializadas para crianças e jovens está a proteger o presente, mas está a prevenir o futuro”, sublinhou.
Carla Rodrigues destacou ainda a importância da cooperação entre as várias entidades envolvidas. “A prevenção, a proteção e o acompanhamento das vítimas só são eficazes quando há uma rede verdadeiramente operacional, com responsabilidades definidas, com avaliação de risco, encaminhamento célere e capacidade de resposta articulada.”
Dirigindo-se diretamente às vítimas, deixou uma mensagem de confiança: “Há de facto uma rede como aquela que aqui vimos, há resposta, há instituições mobilizadas e há um Estado que não pode falhar.”
Entidades da rede apelam às vítimas para que procurem ajuda
Ao longo da cerimónia, as 22 entidades que integram a Rede Violência Zero tiveram oportunidade de partilhar os seus testemunhos e experiências no terreno, sendo unânimes em reconhecer que a violência doméstica é uma problemática que diz respeito a toda a comunidade e que exige uma resposta coletiva, articulada e em rede. As intervenções reforçaram também o apelo para que as vítimas procurem ajuda e não se mantenham em silêncio perante situações de violência.
CIM desafia alargamento das boas práticas a toda a região

Na sessão, o diretor executivo da Comunidade Intermunicipal da Região Beiras e Serra da Estrela, António Miraldes, aproveitou para lançar um desafio à CooLabora, defendendo que o modelo desenvolvido na Cova da Beira deve ser alargado aos restantes municípios da região.
“Os bons exemplos, as boas práticas que sei que são implementadas na Cova da Beira, que elas também sejam replicadas no resto do território”, afirmou, lançando publicamente o desafio para que o trabalho desenvolvido pela Rede Violência Zero da Cova da Beira possa inspirar e apoiar a criação de respostas semelhantes nos restantes concelhos da Comunidade Intermunicipal.
