A Santa Casa da Misericórdia da Covilhã atribuiu os nomes de José Mesquita Nunes e António Neto Freire a duas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPIs) que integram o Campus Misericórdia, numa cerimónia de bênção e batismo realizada esta quinta-feira, ao final da manhã. A homenagem reconhece o contributo de duas personalidades para o desenvolvimento da instituição e para a criação de respostas sociais na cidade.
Uma das residências, a primeira instalada na sequência da reconversão de parte do antigo Hospital da Covilhã, passa a ter o nome de José Mesquita Nunes, antigo provedor da Misericórdia. A segunda, resultante da requalificação do restante espaço do edifício hospitalar, recebe o nome de António Neto Freire, atual provedor da instituição.
A decisão de atribuir os dois nomes foi tomada por unanimidade pela Mesa Administrativa, como forma de preservar a memória de quem contribuiu para a construção e consolidação de infraestruturas capazes de responder às necessidades da comunidade.
José Mesquita Nunes: Uma homenagem a quem dedicou a vida aos outros
Na cerimónia, Graça Sardinha, em representação da Mesa Administrativa, destacou a importância de perpetuar a memória de José Mesquita Nunes, considerando que “o engenho e a arte estão presentes na obra de Mesquita Nunes e é justo que se honre e se perpetue a sua memória”.

Miguel Mesquita Nunes, filho de José Mesquita Nunes, recordou a importância que a preocupação com os outros assumia na vida familiar e no percurso do pai, que conciliava a atividade profissional com o trabalho desenvolvido na Misericórdia.
“Em minha casa havia uma palavra que estava sempre presente: os outros”, recordou, acrescentando que o pai procurava defender os mais desfavorecidos e criar respostas que permitissem às famílias ter acesso a creches dignas e aos idosos encontrar apoio.

Miguel Mesquita Nunes lembrou também a dedicação do pai à instituição, evocando as inúmeras vezes em que este saía para a fábrica e para a Misericórdia, adiando o regresso a casa devido às responsabilidades assumidas. Uma dedicação que, afirmou, assentava numa ideia que o pai repetia frequentemente: “Quem não vive para servir não serve para viver”.
Também Alçada Rosa, presidente da Assembleia da Irmandade, enalteceu a visão de José Mesquita Nunes, recordando a sua capacidade de antecipar necessidades e de desenvolver projetos numa altura em que as condições eram difíceis.

“O vosso pai foi uma pessoa extraordinária, com uma visão a longo prazo”, afirmou, dirigindo-se aos filhos do antigo provedor. Entre os exemplos dessa visão, destacou a iniciativa de promover a construção de habitação a custos controlados, através de um projeto iniciado há cerca de 30 anos.
António Neto Freire: dedicação, persistência e proximidade
A atribuição do nome António Neto Freire à mais recente residência reconhece o trabalho desenvolvido ao longo de mais de uma década à frente da instituição.
Na intervenção em nome da Mesa Administrativa, Graça Sardinha descreveu um percurso marcado pela persistência, pela capacidade de trabalho e pela preocupação com a sustentabilidade da Misericórdia. Destacou, em particular, a proximidade do provedor aos utentes, que encontram nele uma presença de confiança e apoio.
Graça Sardinha destacou ainda a proximidade do provedor aos utentes e a capacidade de estar presente no quotidiano da instituição, considerando que “o nosso Provedor, hoje, no Lar, é o confidente de todos e de todas”. Na sua intervenção, descreveu-o como “a esperança que não acaba” e “a presença que acalma”, sublinhando o papel que assume junto dos idosos, sobretudo daqueles cuja família está mais ausente.
“Os nossos idosos sentem que não são esquecidos e que não são apenas sombras num mundo já tão povoado de ausências”, afirmou.

A responsável destacou ainda o humanismo do atual provedor, considerando que a sua ação tem contribuído para transformar o quotidiano dos idosos e reforçar o papel da Misericórdia no apoio à população.
O próprio António Neto Freire reconheceu que a atribuição do nome não fazia parte da estratégia inicial, centrada sobretudo na sustentabilidade financeira da instituição e na capacidade de assegurar o pagamento dos salários e dos fornecedores.
Ao recordar o percurso realizado, salientou a dimensão que a Misericórdia alcançou, agora com mais de 300 funcionários, e a responsabilidade acrescida que acompanha o crescimento das respostas sociais.
O provedor sublinhou ainda o significado especial do edifício, que durante décadas funcionou como hospital e guarda memórias de várias gerações de covilhanenses.

“Este é um edifício especial, não é um edifício qualquer”, afirmou, lembrando que ali nasceram e morreram pessoas e que muitas famílias mantêm uma ligação afetiva ao espaço. Por isso, defendeu que o antigo hospital deve continuar a ser “a memória e o símbolo de todos nós, da cidade da Covilhã e dos habitantes da Covilhã”.
Presente na cerimónia João Casteleiro, atual presidente da Assembleia Municipal da Covilhã e à data diretor do Hospital da Covilhã, em nome dos antigos funcionários entregou um quadrro para embelazar o edificio agora transformado em ERPI.
O presidente da Câmara Municipal da Covilhã, Hélio Fazendeiro, considerou justas as homenagens, sublinhando o reconhecimento devido a quem dedicou a vida à instituição e à comunidade.

“É uma cerimónia simbólica, mas particularmente importante, não só por aquilo que encerra, mas também pelo reconhecimento e a justiça que faz àqueles que deram a sua vida a esta instituição e à nossa cidade”, afirmou, destacando o contributo de José Mesquita Nunes e António Neto Freire para o desenvolvimento da Misericórdia e para a concretização de respostas sociais na Covilhã.
Também presente na cerimónia o Bispo da Guarda, D. José Barata Pereira, destacou o significado da atribuição dos nomes às duas residências, considerando que este reconhecimento valoriza o serviço e a dedicação de quem contribuiu para a instituição. Sublinhou ainda que, apesar dos nomes próprios atribuídos a cada espaço, ambos mantêm a identidade comum da “Santa Casa da Misericórdia”.
Investimento de quatro milhões de euros e 74 novas vagas
A cerimónia assinalou também a conclusão de uma intervenção que permitiu criar mais 74 lugares para pessoas idosas, num investimento global de cerca de 4 milhões de euros, dos quais 2,4 milhões foram assegurados através de financiamento do Estado, no âmbito do PRR.
Em declarações à Rádio Clube da Covilhã, António Neto Freire explicou que o Campus Misericórdia tem capacidade para acolher 200 idosos, estando a ocupação da nova residência a decorrer de forma gradual, de acordo com as necessidades e as condições de acompanhamento de cada utente.
A Misericórdia criou ainda cerca de 80 postos de trabalho adicionais, contabilizando atualmente 340 colaboradores. Apesar da elevada procura, com uma lista de espera que habitualmente varia entre 70 e 100 pessoas, o provedor apontou a dificuldade em recrutar trabalhadores como um dos principais desafios da instituição.
Concluída esta intervenção, a próxima inauguração deverá ser a do infantário Mundo da Fantasia, cuja ampliação e remodelação já estão terminadas. A instituição pretende também avançar com uma unidade de cuidados continuados, um projeto que António Neto Freire considera necessário para responder às necessidades da cidade e da região.
