“A Covilhã é, historicamente, um ponto de encontro de culturas”. A ideia foi deixada pelo presidente da Câmara Municipal, Hélio Fazendeiro, na abertura do colóquio internacional “Questões do Nosso Tempo”, defendendo a importância da “compreensão do que é o outro, a compreensão do que são as circunstâncias, a cultura, os costumes e o modo de pensar”.
O evento decorreu esta quinta-feira na Universidade da Beira Interior e reuniu diversos embaixadores da América Latina em Portugal para debater os principais desafios da atualidade internacional. Teve lugar no auditório das sessões solene que esgotou a sua capacidade.
Hélio Fazendeiro destacou a dimensão multicultural do concelho e da própria UBI, considerando que a presença de representantes diplomáticos de vários países na Covilhã é uma oportunidade para reforçar relações e dar a conhecer o território.
“A Covilhã, que este ano celebra 840 anos de história, tem afirmado o seu caminho na tolerância, na integração, no estabelecimento de pontos e de relações entre povos”, afirmou Hélio Fazendeiro.
O presidente da Câmara, corroborou a afirmação da reitora da UBI e apontou a Universidade como “o exemplo máximo dessa multiculturalidade”, sublinhando que “mais de 50 nacionalidades convivem” atualmente na instituição.
A partir desta realidade, Hélio Fazendeiro defendeu a importância da aproximação entre poder local, academia e diplomacia, considerando que o encontro permitia afirmar o contributo desta “triple hélice” para o futuro das comunidades.
“Se nós queremos que nos compreendam, se queremos que nos respeitem, se queremos que nos valorizem, nós temos que estar disponíveis e despertos para compreender, aceitar e respeitar o outro”, afirmou.
A sessão de abertura contou também com as intervenções da reitora da UBI, Ana Paula Duarte, e do presidente do IPDAL – Instituto para a Promoção da América Latina e das Caraíbas, Paulo Neves, entidades que, juntamente com a Câmara Municipal da Covilhã, organizaram o colóquio.
Ana Paula Duarte destacou o papel da universidade enquanto espaço de conhecimento e de debate sobre os desafios internacionais.
“Vivemos um período particularmente exigente da história contemporânea”, afirmou, apontando para “uma profunda transformação da ordem internacional”, o surgimento de novas dinâmicas de poder, o enfraquecimento de algumas instituições multilaterais e a persistência de conflitos armados e tensões geopolíticas.
Para a reitora, embora a dimensão destes fenómenos seja global, “o impacto é local”, razão pela qual considerou que os temas em discussão dizem respeito à sociedade em geral.
“Os temas que serão aqui discutidos ao longo desta tarde não são apenas assuntos da diplomacia ou da política internacional, são questões que dizem respeito a todos nós”, afirmou a reitora.
Já Paulo Neves destacou a importância da chamada diplomacia local e da capacidade de estabelecer pontes entre diferentes países e comunidades. “O poder local tem, de facto, um papel muito importante na política externa dos países”, defendeu, apontando a Covilhã como “um exemplo perfeito daquilo que deve ser a diplomacia local”, salientando a forma profissional como recebeu esta iniciativa e “soube juntar as empresas, soube juntar a sua Câmara, e quando fala na sua Câmara falo em todos os partidos que fazem parte da Câmara Municipal, a forma como junta também as universidades e os estudantes: é o exemplo perfeito daquilo que deve ser a diplomacia local”, vincou
O presidente do IPDAL deixou ainda uma mensagem aos estudantes presentes, considerando que estes devem assumir um papel ativo na sociedade. “Vocês não vão na conversa que vocês são o futuro. Vocês não são futuro nenhum. Vocês são o presente. E aquilo que vocês têm de fazer é muito simples: tenham conhecimento do que é que aconteceu, porque, como eu costumo dizer, o que vai acontecer já está tudo escrito nos livros de história. Portanto, vocês saibam o que é que já aconteceu, percebam porque é que aconteceu e evitem que volte a acontecer. Nós precisamos muito de vocês”, afirmou.
O programa do colóquio foi dividido em três painéis, dedicados à “Nova Ordem Global e a Crise do Multilateralismo”, às “Frentes de Guerra e de Tensão: Ucrânia, Médio Oriente” e ao “Regresso do Gigante Silencioso: A América Latina na Encruzilhada Geopolítica”.
Participaram no encontro Raul Silvero, embaixador do Paraguai e ex-vice-ministro; José Javier Mulino Quintero, embaixador do Panamá; Rhina Bardi, embaixadora de El Salvador; José Ramón Saborido Loidi, embaixador de Cuba; Raimundo Carreiro Silva, embaixador do Brasil; e Germán Grisales, embaixador da Colômbia. A sessão de encerramento contou ainda com a participação do embaixador do Peru.
O encontro procurou cruzar diferentes perspetivas políticas e diplomáticas sobre a atual conjuntura internacional, aproximando a academia, o poder local e a diplomacia num debate sobre as transformações geopolíticas que marcam o presente.
