Luís Paixão Martins, especialista em comunicação, apresentou, esta quarta-feira, o livro “Como Mentem os Políticos”, que explora como a mentira se tornou um ativo comunicacional poderoso, destacando a verdade e a mentira nos meios de comunicação, no Museu dos Lanifícios, na Covilhã.
O livro foi apresentado pelo diretor do Jornal do Fundão e Professor na Universidade da Beira Interior (UBI), Nuno Francisco, numa sessão que contou com a presença de Ana Paula Duarte, reitora da UBI e Hélio Fazendeiro, presidente da Câmara Municipal da Covilhã.
Esta obra retrata sobretudo a verdade e a mentira nos meios de comunicação e também nas redes sociais. Nuno Francisco revelou, durante a apresentação, que a mentira se tornou um ativo comunicacional poderoso e os públicos parecem estar a gostar de ser iludidos.

“Vivemos numa época em que a verdade e a mentira têm o mesmo valor nos media, quer seja nos media de marca, tradicionais ou nas redes sociais. A mentira tornou-se um ativo comunicacional, poderoso e os públicos parecem estar a gostar de ser iludidos, em particular no futebol e na política. Isto está na página 12 do livro, começando por avisar, Luís Paixão Martins que, depois de compreender uma eleição e cometer sondagens, volta para nos colocar em renovado modo de reflexão, colocando-nos desta vez um espelho à frente e conseguindo a proeza de nos fazer embarcar sem hesitações, numa viagem por aquilo que sabemos à partida que é um incómodo processo em curso de destruturação dos pressupostos fundamentais da comunicação, da confiança nos outros e da confiança nas instituições”, começou por explicar o diretor do Jornal do Fundão.
O Professor da UBI afirmou ser um livro de uma escrita de rara inteligência, ironia e perspicácia, que já é um hábito do autor. Para além disso, aborda a questão do gatekeeping, revelando estar atualmente em colapso.
Segundo Nuno Francisco, estão presentes na obra vários exemplos de como as pessoas se estão a tornar cada vez mais reféns das meias verdades, sendo que Luís Paixão Martins apresenta exemplos da Europa com consequências reais e visíveis para todos.
“Neste livro estão muitos exemplos de como nos estamos a tornar cada vez mais reféns das meias verdades, da realidade reduzida a slogan, da fácil indignação alimentada por verdades e realidades alternativas, que vivemos a partir do sofá ou da mesa do café e quando se olha para os ecrãs. Na Europa, o autor escolheu vários exemplos com consequências reais e bem visíveis para todos.”
Luís Paixão Martins explicou o papel das redes sociais neste processo, dado que a única preocupação das mesmas é tornas as pessoas num produto, de modo a ter mais movimento, anunciantes, importância e melhores receitas. Para o autor, por essa mesma razão, nas plataformas de redes sociais deixou de haver a separação entre o que é verdade e a mentira. “A mentira passou a ser um ativo de comunicação tão valorizado, relevante e disponível como a verdade.”

No livro, fala ainda sobre a comunicação política e as preocupações de um político no ponto de vista comunicacional.
“A única preocupação de comunicação de um político é o recetor, não é o facto. Na relação do dia a dia, da vida do político, o objetivo da comunicação é conseguir atrair pessoas. A sua comunicação é baseada na relação com o recetor e não na relação com o facto”, disse o especialista em comunicação.
Livro apresentado na UBI
O livro, lançado em outubro de 2026, foi apresentado no Museu dos Lanifícios – Núcleo Museológico da Real Fábrica Veiga, na Universidade da Beira Interior, na Covilhã.
Para Ana Paula Duarte, reitora da UBI, este tipo de momentos é sempre muito importante para uma universidade, visto que esta obra em questão traz um desafio adicional.
“A apresentação de um livro é sempre um momento feliz para uma universidade, mas este dá-nos um desafio adicional, porque o título não deixa ninguém indiferente. Como “Mentem os Políticos”, desperta bastante curiosidade, mas também provoca alguma inquietação e leva-nos a pensar sobre a relação entre quem comunica e quem recebe a mensagem”, explicou a reitora.
Também presente na sessão, Hélio Fazendeiro, presidente da Câmara Municipal da Covilhã, aceita o desafio do livro, como político, visto que a obra deixa algumas questões que são “nossas”.

“O livro deixa-nos perguntas que são nossas. Se todos mentem, o que acontece à democracia? Que sentido faz votar se deixarmos de acreditar no que nos dizem? A abstenção e o cinismo são a fatura da mentira generalizada e o futuro agrava o desafio. A inteligência artificial reduz a quase zero o custo de fabricar textos, imagens, vozes e vídeos falsos. O que fazer? Literacia mediática desde a escola, jornalismo profissional forte e financiado e os políticos que aceitem ser escrutinados e que prefiram perder uma discussão com verdade a ganhá-la com mentira. Como político aceito o desafio do livro. Quem exerce o poder deve ser o primeiro a respeitar os factos, a responder aos jornalistas e a assumir os seus erros. Um político que mente a um jornalista mente a todos nós”, afirmou o autarca.
O chefe do executivo municipal informou ainda que este é um livro que não é contra um partido, nem contra um país, pois documenta com números o caso extremo dos Estados Unidos, mas fala de uma “doença do espaço público, não de uma bancada”.
Recorde-se que a frase da capa da obra “A mentira é uma das poucas atividades em que o humano age com liberdade absoluta face aos factos”, foi criada por um assistente de Inteligência Artificial, o Claude, ao qual o autor recorreu para responder a algumas questões.
