A 13.ª edição do Wool – Festival de Arte Urbana da Covilhã terminou este domingo, 21 de junho, deixando novos murais na cidade, uma forte componente participativa e uma mensagem de renovação e esperança.
Para Lara Seixo Rodrigues, mentora do festival, a principal marca desta edição foi a construção de comunidade, num projeto que ultrapassou as fronteiras da região e mobilizou participantes de todo o país e até do estrangeiro.
Apesar dos novos murais espalhados pela cidade, Lara Seixo Rodrigues considera que o maior legado desta edição vai muito além da intervenção artística.
“Claramente, mais cultura e eu diria até que, para além disso tudo, mais comunidade. Aquilo que nós sentimos realmente foi que o grande projeto desta edição foi, para além dos murais obviamente, a comunidade”, afirmou à reportagem da Rádio Clube da Covilhã.
Mural na zona baixa da cidade inspirado em Amália

Pela primeira vez, o festival estendeu-se à parte baixa da Covilhã, através de uma intervenção de grande dimensão inspirada num verso interpretado por Amália Rodrigues.
“Está a ter um impacto enorme, não só pela dimensão, mas também pela mensagem que lá fica, deste novo dia, saído do verso do fado da Amália e que nos relembra sempre que podemos começar sempre um novo dia de uma forma absolutamente diferente”, explicou.
A Nossa Casa: “O processo é sempre muito importante”
Uma das iniciativas mais marcantes foi a peça comunitária “A Nossa Casa”, construída a partir de milhares de quadrados de lã enviados por participantes de vários pontos do país e do estrangeiro. Nas contas da organização são mais de 7.000.
“Nós agora brincamos e dizemos que realmente criámos aqui um pequeno monstro e que a comunidade que construiu esta peça não se restringiu à Covilhã, foi toda a região, todo o país e chegaram-nos coisas do exterior.”

“De repente isto cresceu para o país todo, enviámos material para todo o lado, desafiámos as pessoas que tivessem fio, lã em casa para nos enviarem os seus quadrados e ainda hoje continuamos a receber quadrados.”
Lara sublinha que a “casa tem mais de sete mil quadrados. Temos uma manta gigantesca também que hoje nos vai acompanhar no almoço comunitário e temos ainda muitos outros que temos que agora ver o que é que vamos fazer.”
Questionada sobre a importância do resultado face ao processo de construção, Lara Seixo Rodrigues não hesita. “Para mim o processo é sempre muito importante.”
A mentora explica que essa lógica está presente em toda a dinâmica do festival, desde a conceção dos murais até ao envolvimento da população.

“Mesmo na construção de um mural nós tentamos sempre envolver várias comunidades, várias instituições, na recolha de informação, na partilha. Os próprios artistas, quando chegam, nós levamo-los a fazer este reconhecimento do território, que é onde se firma ali um compromisso com o nosso território.”
A participação popular acaba, muitas vezes, por influenciar diretamente o trabalho artístico, sublinha também a responsável.
“As pessoas nem têm bem noção, mas também são parte desta construção, pelos feedbacks que vão dando aos artistas que estão a pintar na rua, que os fazem sentir melhor ou pior, aceitar e muitas vezes até contribuem com ideias para os próprios murais.”
Apesar dos cortes financeiros qualidade não foi beliscada
Apesar dos cortes financeiros por parte do Turismo de Portugal em mais de 85 mil euros, Lara Seixo Rodrigues considera que a qualidade do festival foi preservada.

“Mesmo com o corte, nós assumimos sempre que iríamos dar o nosso melhor, com a máxima qualidade sempre, e eu acho que isso é imparável.”
A responsável destaca o empenho de todos os envolvidos, desde a equipa organizadora aos voluntários e participantes.
“Eu diria que o compromisso, o encontro, é a construção de comunidade, é a possibilidade de sonharmos e de confirmarmos que é possível viver de outra forma, estar de outra forma em sociedade, muito mais empática.”
Edição de 2027 já está a ser preparada
Os trabalhos para a 14.ª edição já começaram e a candidatura à Direção-Geral das Artes já foi submetida.
“Na verdade, nós fizemos uma candidatura para o próximo ano para a DG Artes e, portanto, já tem que ir tudo definido.”
Embora a incerteza financeira permaneça, a organização continua a planear o futuro.

“A candidatura está pensada, está desenhada, os convites aos artistas estão feitos e agora nunca sabemos, como sempre, se vai haver o próximo Wool, e vamos ver.” “Temos de nos certificar de ter sempre mais argumentos para mostrar o projeto incrível que nós aqui temos e que garante sustentabilidade de inúmeras formas e inúmeras dimensões ao nosso território, e não só à região também e ao país. É um projeto único em Portugal.”
Combater o preconceito sobre a arte urbana
A mentora do Wool rejeita a ideia de que a arte urbana seja uma expressão artística menor e atribui esse pensamento ao desconhecimento.
Segundo a responsável, persiste uma visão redutora sobre esta forma de arte.
Lara Seixo Rodrigues defende que os murais são instrumentos de transmissão da identidade e da memória coletiva.
Ainda assim, alerta para um contexto social cada vez mais polarizado.
“Existe um enorme desconhecimento, um medo, um preconceito enorme que vem do desconhecimento. É muito fácil dizer ‘eu não gosto, eu não quero’. A forma como nós encaramos a cultura reflete a sociedade e o mundo que nós estamos a viver e, infelizmente, é este também”, lamenta.
Foto de Lara Seixo Rodrigues: Miguel Oliveira
