A necessidade de encontrar um equilíbrio entre a preservação ambiental e o desenvolvimento económico marcou o debate “Os desafios de ontem, hoje e amanhã do Turismo da Serra da Estrela”, promovido pelo Rotary Club da Covilhã, no Hotel Serra da Estrela, nas Penhas da Saúde, no âmbito das comemorações dos seus 60 anos.
A iniciativa reuniu responsáveis institucionais, especialistas e agentes ligados ao território, que convergiram na ideia de que a Serra da Estrela deve afirmar-se como um destino turístico sustentável, menos dependente da sazonalidade e assente na valorização dos seus recursos únicos.
Nuno Pais: “O potencial por si só não chega”

Na abertura da sessão, o presidente do Rotary Club da Covilhã, Nuno Pais, defendeu uma visão estratégica e concertada para o futuro da montanha.
“A Serra da Estrela é muito mais do que um destino turístico. É a identidade, é a memória, é a natureza, é a cultura, é a economia e é também responsabilidade coletiva”, afirmou.
Para o responsável, a Serra da Estrela deve deixar de ser encarada como um destino sazonal, dependente da neve, e afirmar-se como um destino de excelência ao longo de todo o ano.
“O potencial por si só não chega. É necessária inovação com estratégia adequada, coordenação e investimento, promoção, sustentabilidade e, acima de tudo, uma visão partilhada entre municípios, empresas, instituições, associações, agentes turísticos e comunidades locais”, sublinhou.
Nuno Pais defendeu ainda que o turismo deve, em primeiro lugar, beneficiar as populações residentes e apelou à construção de um projeto comum para o território.
Turistrela aponta falta de condições para investir

O presidente da Turistrela, Artur Costa Pais, identificou os entraves administrativos como o principal obstáculo ao desenvolvimento turístico da Serra da Estrela.
“Fala-se que não há investimentos, é verdade que não há investimentos, mas onde é que estão as condições administrativas para que estes investimentos possam existir?”, questionou.
O responsável revelou que a empresa apresentou há cerca de dois anos um plano de investimentos ao Governo, mas que “95% destes projetos não foram validados”.
Artur Costa Pais criticou as limitações impostas pelo atual ordenamento do Parque Natural, defendendo a necessidade de revisão dos instrumentos de gestão territorial.
“Qualquer empresário que queira investir na Serra da Estrela, nas Penhas da Saúde, Penhas Douradas, Piornos ou Lagoa Comprida, não tem condições administrativas. O plano de ordenamento não permite desenvolver qualquer atividade empresarial”, afirmou.
O presidente da Turistrela apelou ainda a uma maior articulação entre entidades públicas e privadas e insistiu na necessidade de aumentar a oferta turística.
“Não há turismo sem alojamento, não há turismo sem oferta de restauração. Nenhuma montanha com as características da Serra da Estrela pode existir com dois ou três hotéis”, referiu.
ICNF defende preservação como motor económico

O diretor regional do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), Paulo Farinha Luís, defendeu que a singularidade da Serra da Estrela é precisamente o seu maior ativo económico.
“Na Serra da Estrela temos um património único que não existe em mais nenhum lado e, se qualquer pessoa o quiser visitar, tem de vir à Serra da Estrela. É nesta singularidade que está este valor económico”, destacou.
O responsável sublinhou a importância da recente classificação da Serra da Estrela como Reserva da Biosfera da UNESCO, alertando para a necessidade de cumprir os compromissos assumidos.
“Temos de ter consciência que, para manter este selo, temos de preservar uma série de valores que nós próprios defendemos na candidatura”, afirmou.
Paulo Farinha Luís defendeu igualmente um modelo turístico assente em unidades de menor dimensão e numa mobilidade mais sustentável.
“A tendência mundial do turismo é menos turismo de massas e mais turismo de natureza. Não um grande hotel com 200 quartos, mas vários pequenos hotéis que permitam a mesma taxa de ocupação da Serra da Estrela”, explicou.
O diretor regional do ICNF acrescentou que os investimentos de maior dimensão devem localizar-se na base da montanha.
“Não consigo pôr o topo da Serra na base, mas consigo colocar a maior parte dos investimentos na base da Serra, garantindo uma mobilidade sustentável e amiga do ambiente”, disse.
Gonçalo Poeta Fernandes pede transformação dos recursos em produtos turísticos

O professor da Escola Superior de Turismo e Hotelaria do Instituto Politécnico da Guarda destacou o crescimento da procura turística e a diversificação dos mercados internacionais.
“Estamos atualmente a falar de mais de meio milhão de hóspedes na Serra da Estrela, em torno dos 550 mil”, revelou.
Segundo Gonçalo Poeta Fernandes, os mercados tradicionais estão a perder peso, enquanto crescem mercados como o brasileiro, o norte-americano, o britânico e o dos Países Baixos.
O especialista alertou, contudo, para a necessidade de estruturar melhor a oferta turística.
“Um grande desafio que temos pela frente é saber estruturar os produtos turísticos da Serra da Estrela, que é uma falha enorme”, afirmou.
“Temos recursos como a água, a gastronomia, as paisagens e as aves, mas temos de os saber transformar em produto gastronómico, produto de natureza ou produto de observação de aves, que não estamos a conseguir”, acrescentou.
O académico sublinhou ainda a importância da qualificação dos recursos humanos e da valorização salarial.
“Não podemos vender quartos a 200 euros ou servir refeições a 50 euros se quem estiver à nossa frente não tiver um referencial técnico de atuação, dominar línguas e ter capacidade para interagir com elegância e cuidado com os turistas”, referiu.
Emanuel Castro: “Há locais onde o turismo deve ser limitado”

Em representação do presidente da Câmara Municipal de Manteigas, Flávio Massano, Emanuel Castro, antigo diretor executivo do Geopark Estrela, rejeitou a ideia de que as classificações internacionais sejam meros selos de reconhecimento.
“A classificação de Geoparque Mundial da UNESCO ou de Reserva da Biosfera é muito mais do que um selo. É uma estratégia que incorpora um conjunto de políticas que comprometem os atores locais do território”, afirmou.
O responsável destacou a riqueza ambiental da Serra da Estrela, recordando a existência de cerca de 1.300 espécies de flora, mais de 1.800 espécies de fauna e centenas de fungos e líquenes, alguns exclusivos deste território.
Emanuel Castro defendeu que a preservação destes valores deve orientar todas as decisões futuras.
“Não há futuro para a Serra da Estrela se não pensarmos na preservação destes valores que nos permitiram chegar até aqui”, sublinhou.
O antigo responsável do Geopark Estrela admitiu ainda a necessidade de impor limites ao desenvolvimento turístico em determinadas áreas.
“Há locais onde o turismo deve ser limitado. Porque se o grande ativo turístico da Serra da Estrela é a própria Serra da Estrela, então não destruamos aquilo que este ativo representa”, concluiu.
Um consenso: proteger para desenvolver

Apesar das diferentes perspetivas apresentadas, o debate revelou um denominador comum entre os intervenientes: a Serra da Estrela deve continuar a crescer enquanto destino turístico, mas sem comprometer os recursos naturais e identitários que a tornam única.
A necessidade de simplificar processos administrativos, diversificar a oferta turística, qualificar os profissionais e reforçar a cooperação entre entidades públicas e privadas foram algumas das prioridades apontadas para garantir um desenvolvimento sustentável do principal território de montanha do país.
No debate participou ainda o antigo presidente da Região de Turismo da Serra da Estrela, Alberto Alçada Rosa, que recordou o passado da instituição.
