O tinte, na Travessa do Tinte, infraestrutura industrial descoberta no centro histórico da Covilhã, está em vias de obter classificação de interesse nacional. O professor Jorge Custódio, que investigou o local, já realizou um documento e entregou ao município para ser classificado.
A informação foi dada pelo investigador, esta segunda-feira, durante a tertúlia MC2 – Movimentos Culturais Coletivos, “Tintes, Pisões e Râmolas de Sol”, iniciativa promovida pelo Museu da Covilhã, que integra a programação dos 840 anos de história e 156 anos de elevação da Covilhã a cidade.
A estrutura, localizada na zona histórica da cidade, foi inicialmente alvo de um processo de classificação municipal, iniciado pela Câmara da Covilhã em janeiro de 2025. No entanto, o Património Cultural Nacional IP considerou que a relevância histórica e patrimonial do achado justificava um enquadramento de âmbito nacional.
Segundo Jorge Custódio, especialista na arqueologia industrial, foram desenvolvidas várias investigações relacionadas com a questão do tinte, que já foram entregues ao município.
“Eu desenvolvi um conjunto de investigações relacionadas com a questão do tinte, da travessa do tinte, da qual já fiz um documento e já entreguei ao município para ser objeto de classificação. Está a ser bem recebido, felizmente, está a ser recebido não só pela Câmara, mas também pelo Património Cultural do país e isto é extremamente interessante. O Património Cultural do país precisa, também, de tomar sentido para esses valores do património industrial que existem e, como tal, portanto, neste momento há um aviso da sua classificação como Monumento de Interesse Nacional, porque é, de facto, uma estrutura muito interessante”, disse o investigador.
Os primeiros estudos técnicos e científicos apontam para que a infraestrutura remonte ao século XVI, podendo tratar-se do estabelecimento de tinturaria mais antigo do país atualmente conhecido.
Jorge Custódio revelou que foi feito um levantamento das fábricas da Covilhã, sendo que existiam pequenos apontamentos feitos pelas instituições, desde 1980.
“Tem havido pequenos apontamentos feitos pelas instituições que trabalham no património em Portugal desde 1980, mas não houve, até agora, políticas para o património industrial em Portugal sérias. Com exceção daquela que foi feita para a Covilhã. Foi feito o inventário das fábricas da cidade, de forma rigorosa, muito profissional e que depois se materializou em estudos e em trabalhos. que foram, efetivamente, feitos, um dos quais é a Rota da Lã, coordenada pela Elisa de Calado Pinheiro. Que eu conheça, não há uma cidade com este nível de conhecimentos e com monumentos já classificados.”
Durante a sua apresentação, Jorge Custódio abordou a cronologia proposta dos lanifícios da Covilhã, os pisões, sendo que não existe uma coisa sem a outra e são essenciais para fazer o tecido.
O investigador comentou ainda sobre as transferências tecnológicas, a estrutura dos lanifícios na época que o Marquês de Pombal interviu, as Râmolas de Sol, os tintes, teares, tecelagem, trapeiros e tecelões.
Com a descoberta do tinte na Travessa do Tinte, o investigador recorreu à interpretação, inventário de 2002, fontes documentais e orais, cartografia, fotografia e genealogias regressivas, para conseguir um processo de classificação (2026).
Após a investigação chegou a algumas conclusões como: as colunas têm nove capiteis do Séc. XIII, todos iguais. No entanto, a arquitetura do tinte na Covilhã só pode recuar até ao Séc. XVI. Para além disso chamou à atenção para aquilo que encontrou no interior, como as lareiras, para o aquecimento das águas.

Jorge Custódio espera que a Câmara Municipal da Covilhã “consiga fazer o projeto de recuperação”, visto que o município garantiu concluir o processo de classificação de interesse municipal ainda neste outono. Paralelamente, decorre o despacho de abertura do procedimento de classificação de âmbito nacional.
Presente na sessão, Hélio Fazendeiro, presidente da Câmara Municipal da Covilhã, agradeceu o trabalho do professor e pediu que continue a ajudar o município, dado que existe “um património rico” e “uma história fabulosa que precisa de continuar a ser descoberta”.
Recorde-se que Jorge Custódio, natural de Santarém, é doutorado pela Universidade de Évora e investigador integrado do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa.
Esteve diretamente ligado à génese e reorganização de importantes espaços museológicos nacionais que preservam a memória de trabalho, tais como o Museu dos Lanifícios da Covilhã, o Museu da Fábrica de Rolhas de Cortiça em Silves, o Museu do Ferro da região de Moncorvo, o Museu do Cimento na Maceira Liz, o Museu Municipal de Santarém e Núcleo Museológico do Tempo, o Museu da CIMPOR em Alhandra, o Museu do Carvão e das Minas do Pejão, o Museu de Albergaria a Velha, entre outros.
É coautor do catálogo e estudos do Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior: Núcleo da Tinturaria da Real Fábrica de Panos, Covilhã, 1998, coordenado por Elisa Calado Pinheiro. Coordenou e foi o redator do processo de classificação da Fábrica António Estrella /Júlio Afonso (Monumento de Interesse Público) e autor do relatório destinado à classificação do Tinte da Travessa do Tinte (2024-2026).
