25 Abril Covilhã: apelos à memória, à justiça social e à defesa da democracia

A sessão solene da Assembleia Municipal da Covilhã, comemorativa dos 52 anos do 25 de Abril, hoje de manhã no Salão Nobre dos Paços do Concelho, ficou marcada pela evocação da memória histórica e pela defesa da democracia como construção permanente.

João Casteleiro abre sessão a evocar memória, democracia e responsabilidade coletiva

O presidente da Assembleia Municipal, João Casteleiro, num discurso de tom reflexivo e humanista, sublinhou que a liberdade exige cultivo e transmissão entre gerações, defendendo a criação de “centros de interpretação” nas escolas para preservar a memória da Revolução.


Evocando o recente desaparecimento de António Lobo Antunes, homenageou-o como “um homem de Abril”, citando uma reflexão do escritor sobre a dificuldade de aprender a viver em liberdade: “Toda a gente queria ser livre, mas não se sabia o que era a liberdade, porque nunca a havíamos tido.” A partir dessa memória, alertou para o risco do individualismo e para a erosão do sentido de comunidade, defendendo uma democracia “plural, dialogante e moderna”, capaz de responder às crises do presente.

No fecho, num registo de forte ligação ao território, exaltou o percurso da Covilhã na educação, ciência e integração, lembrando que “temos obrigação de tornar esta data não só memorável, mas que possa fazer parte da nossa identidade coletiva”. Deixou ainda um apelo à empatia, à tolerância e ao respeito intergeracional como bases da democracia de Abril.

PCP exalta conquistas de Abril e avisa que “a caminhada não acaba”

Marco Gabriel, em representação do PCP, centrou a intervenção no simbolismo acrescido dos 50 anos da Constituição da República, apresentada como “a força da lei de Abril” e instrumento central da transformação democrática. Num discurso muito assente em indicadores sociais e constitucionais, revisitou conquistas em áreas como educação, saúde, habitação e direitos laborais, defendendo que “Portugal de 2026 é radicalmente mais justo e desenvolvido que o de 1974”.

Com recurso a citações e números, traçou uma narrativa de progresso sustentada na Constituição, classificando-a como “uma das mais progressistas e avançadas do mundo”. Repetiu por várias vezes a ideia de “caminhada”, inspirada em Gonçalo M. Tavares, para sublinhar que Abril é processo inacabado. “A utopia é uma caminhada que não acaba e a democracia não se faz com sedentários”, afirmou, numa das passagens mais marcantes.

Sem deixar de exaltar as conquistas, apontou problemas atuais — habitação, baixos salários, desigualdades — como desafios que exigem aprofundar e não recuar no legado de Abril. Terminou com uma defesa enfática do poder local democrático e um apelo: “Não sejamos sedentários de sofá, sejamos caminhantes que mantêm viva a utopia de Abril.”

Chega questiona se o país está a honrar Abril e reivindica legado do 25 de Novembro

Pelo Chega, Amadeu Alberto fez da pergunta “Estamos a honrar verdadeiramente o 25 de Abril?” o eixo da sua intervenção. Defendeu que Abril “não é uma data, é um compromisso permanente”, relacionando a evocação da revolução com problemas atuais como habitação, insegurança e distanciamento entre cidadãos e instituições.

Num discurso centrado na ideia de que a liberdade permanece incompleta para muitos portugueses, insistiu que a democracia deve ser vivida para lá do voto periódico. “Democracia não é apenas votar de quatro em quatro anos, democracia é ouvir as pessoas”, afirmou. Criticou burocracia, centralismo e “decisões afastadas da vontade popular”, reclamando uma leitura plural de Abril.

A parte politicamente mais vincada da intervenção foi a exaltação do 25 de Novembro, apresentado como momento em que a democracia representativa se consolidou. “Sem o 25 de Novembro, Abril poderia ter sido apenas uma transição para outra forma de autoritarismo”, declarou, encerrando com a tripla proclamação: “Viva a liberdade, viva Abril, viva Novembro.”

CDS alerta para riscos do populismo e pede união em defesa da democracia liberal

Pelo CDS Adolfo Mesquita Nunes fez um discurso centrado na defesa da democracia liberal e na crítica aos radicalismos. Partindo da ideia de que “ninguém representa o povo”, recusou conceções uniformizadoras da sociedade e afirmou que a liberdade “não tem tutela de ninguém”.

Num registo combativo, alertou para ameaças vindas tanto da esquerda como da direita e insistiu que o populismo “não é só perigoso quando ganha eleições, contamina o discurso político”. Recorreu várias vezes à expressão “A sério?” para questionar prioridades do debate público, criticando a centralidade de guerras culturais face a problemas como desigualdades, habitação, educação ou mobilidade social.

Deixou ainda um apelo transversal às forças políticas moderadas. “Há muitos combates que nos afastam… mas este combate é maior”, afirmou no final, pedindo linguagem política mais próxima e mobilizadora para defender a democracia liberal. Foi uma intervenção marcada pelo alerta, mas também por um apelo à convergência democrática.

MIPP invoca promessas de Abril e liga futuro da Covilhã à justiça social

José Páscoa, pelo Movimento Independente pelas Pessoas, cruzou referências poéticas e identidade local com uma leitura social do legado de Abril. Assumiu que “Abril cumpriu”, mas advertiu que os problemas do presente mostram que a promessa de “paz, pão, habitação, saúde e educação” continua atual.

Num discurso fortemente enraizado na realidade covilhanense, evocou operários, mineiros, empresários e universidade para sustentar uma visão de progresso assente num “pacto local” entre trabalhadores e empresas. Alertou, porém, que os tempos anteriores a 1974 “podem repetir-se” se a democracia não for cuidada e se as promessas sociais forem esquecidas.

Com forte carga programática, assumiu compromissos políticos para o concelho e deixou uma frase-síntese do discurso: “A liberdade é como o ar, só percebemos o seu valor quando nos começa a faltar.” Terminou reiterando que “50 anos depois, Abril cumpriu e vai continuar a cumprir”.

PSD defende balanço crítico do percurso democrático e admite que “falhámos brutalmente” em aspetos de Abril

António Saraiva, pelo PSD, propôs uma reflexão sobre o caminho percorrido desde a revolução, sublinhando conquistas, falhas e tarefas por cumprir. Num discurso centrado na necessidade de não romantizar o percurso democrático, afirmou ser preciso avaliar “o que fizemos bem, o que fizemos mal e o que falta fazer para cumprir Abril”.

Reconhecendo progressos em direitos e liberdades, chamou atenção para desigualdades persistentes, pobreza, discriminação, violência e abandono do interior. Numa das frases mais fortes admitiu que “não falhámos brutalmente com o 25 de Abril”, mas há áreas onde a promessa de igualdade continua incompleta.

Sublinhou ainda a distância entre lei e realidade: “No papel não há discriminação, mas na prática nem sempre é assim.” Defendeu políticas inclusivas, combate aos discursos de ódio e compromissos de longo prazo para o país, concluindo que, apesar das insuficiências, “a democracia é sempre melhor do que a ditadura”.

Juventude e igualdade marcaram discurso do PS: “O 25 de Abril cumpre-se todos os dias”

Beatriz Duarte, em representação do PS, levou à sessão uma das intervenções mais geracionais e centradas na igualdade. Falando como jovem de 19 anos e como mulher, defendeu que as conquistas democráticas “não caíram do céu” e que a igualdade “não é um ponto de chegada, é um caminho permanente”.

Num discurso que cruzou memória histórica e responsabilidade presente, sublinhou que a sua geração herdou direitos, mas também deveres de defesa e aprofundamento da democracia. “O 25 de Abril não é apenas uma data histórica, pertence ao presente”, afirmou, insistindo que a liberdade se cumpre nas escolhas quotidianas.

A intervenção destacou ainda a dimensão feminista e intergeracional do legado de Abril, lembrando que o caminho está longe de concluído. “Nada disto está garantido para sempre”, advertiu, antes de encerrar com uma frase que resumiu o tom da intervenção: “O 25 de Abril cumpre-se todos os dias.”