Bombeiros da Covilhã levam “uma das mais graves crises” da história à reunião de Câmara

Os Bombeiros Voluntários da Covilhã tornaram público, esta sexta-feira, um manifesto de descontentamento face à situação interna da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Covilhã, durante o período de intervenção do público da reunião pública da Câmara Municipal da Covilhã.

Em representação de um grupo de signatários do documento, Hélio Pinto acusou a direção da instituição de promover um clima de divisão e falta de diálogo, anunciando ainda que será apresentado um documento mais detalhado na próxima Assembleia Municipal.


Na sua intervenção, Hélio Pinto começou por justificar a presença dos bombeiros no fórum municipal, afirmando que o objetivo foi “dar voz a quem serve a comunidade e sente que essa mesma comunidade deve conhecer a verdade sobre o estado da instituição que os protege”.

O representante revelou que os bombeiros já tinham solicitado uma audiência ao presidente da Câmara Municipal da Covilhã, que terá recebido representantes da corporação e assumido o compromisso de acompanhar a evolução da situação. “Atitude que os bombeiros desta Corporação reconhecem e agradecem publicamente”, declarou.

Durante a intervenção, os bombeiros fizeram também um reconhecimento público ao comandante em suplência, Óscar Pinto, sublinhando “o mais elevado profissionalismo, a resiliência e a capacidade de gestão necessária para assegurar a continuidade operacional da Corporação”.

Acusações à direção da associação

No manifesto apresentado, os bombeiros consideram que a Associação Humanitária atravessa “uma das mais graves crises da sua história”, responsabilizando diretamente a direção.

“A crise não vem de fora, nem da falta de dedicação de quem serve no terreno. Vem de dentro. Vem da sua própria direção”, afirmou Hélio Pinto.

Entre as críticas apontadas estão alegadas falhas de comunicação entre a gestão e o corpo operacional, pressão sobre elementos que questionam decisões e um “clima de intimidação que sufoca o diálogo e penaliza a consciência”.

“Vivemos num quartel dividido. Uma divisão fomentada, alimentada e instrumentalizada por uma direção que governa de costas voltadas para o corpo de bombeiros”, declarou.

Os bombeiros afirmaram ainda que o protesto agora tornado público constitui apenas um “primeiro momento formal” de contestação, adiantando que está em preparação um documento “mais completo e detalhado”, a apresentar na próxima Assembleia Municipal. Foi também anunciada a entrega da resolução do plenário sindical ao executivo municipal.

“Os capacetes foram pousados”

Num dos momentos mais marcantes da intervenção, Hélio Pinto recordou que na corporação, houve capacetes pousados no chão em protesto pelo que se vive no quartel.

“Os capacetes foram pousados no chão, no chão do mesmo quartel que nos viu partir para milhares de missões ao longo de 150 anos. Não foi um gesto impulsivo, foi um acto deliberado, sentido, carregado de peso”, afirmou.

Segundo o representante, o gesto pretende representar “o limite de quem sabe o valor da sua vida e não aceita que ela seja gerida por mãos que não honram a nossa farda”.

Rejeitando qualquer ideia de insubordinação, Hélio Pinto insistiu que a ação teve um significado de defesa institucional: “Não foi um acto de insubordinação. Foi um acto de dever e de honra à farda que vestimos”.

Câmara promete acompanhar situação, mas sem interferir

Na resposta à intervenção, o presidente da Câmara Municipal da Covilhã, Hélio Fazendeiro, começou por agradecer o trabalho desenvolvido pelos bombeiros ao longo dos 150 anos da instituição.

O autarca reconheceu acompanhar o processo “com muita proximidade e preocupação”, recordando que, enquanto responsável máximo da proteção civil no concelho, mantém atenção à situação. Ainda assim, sublinhou os limites da atuação do município.

“O Presidente da Câmara não manda na instituição, não manda na Associação Humanitária, não manda no Corpo de Bombeiros”, afirmou, acrescentando que a autarquia apenas se pode “colocar à disposição de todos para ajudar a encontrar soluções e construir pontes”.

Hélio Fazendeiro apelou ao diálogo e ao foco no interesse público, defendendo a necessidade de encontrar “um ponto de encontro, de equilíbrio, de consenso”, para ultrapassar as divergências internas.

“Espero que ela se resolva com serenidade, com sentido de responsabilidade, no mais curto espaço de tempo”, concluiu.

Também os vereadores da oposição se mostraram solidários, sublinhando que é necessária paz social na Associação, vincando que é preciso trabalhar no sentido de encontrar consensos.

Recordar que, em comunicado, o STAL já ontem fez saber as reivindicações dos bombeiros, enviadas por diversas vezes à direção da Associação.

Em causa estão questões relacionadas com o não cumprimento do acordo de empresa e a falta de respostas da direção.

Entre as situações apontadas estão o “incumprimento dos intervalos de refeição e tempos de descanso”, a “falta de pagamento do subsídio de turno”, a “falta de pagamento do trabalho suplementar”, bem como a “ausência de constituição da Comissão Paritária prevista no Acordo de Empresa” e a “necessidade de regulamentação da carreira de bombeiro”.